Um bilhete só de ida para Zubrowka, por favor.

Uma semana depois da estreia mundial do seu novo filme “O Grande Hotel Budapeste”, na competição oficial do Festival Internacional de Berlim, Wes Anderson pega o trem de volta ao país que ele escolheu para fixar seu endereço: a França. E assim como a maioria dos estrangeiros, o diretor americano deixou-se encantarpelo estilo de vida parisiense – tão diferente da sua terra natal, Houston – Texas.

Mas com seu terno de tweed típico de um professor universitário inglês, ele deixa claro que não pretende se adaptar a estereótipos. Na verdade, ele mesmo é uma expressão daquilo que vemos nas telas. Um terno inglês, uma cara nórdica e um sotaque americano. No fim das contas, uma mistura interessante que acabou por dar certo e que nos capta a atenção.

É com essa primeira impressão que ele entra na Sala 1 do Comoedia, pequeno cinema de arte de Lyon, para conversar com alguns sortudos que há dias atrás fizeram uma fila de dar a volta no quarteirão (literalmente) só pra conseguir ingressos pra assistir ao “Grande Hotel Budapeste” em pré-estreia. E como prometido, lá estava ele, pronto para responder às perguntas que o seu público poderia ter. Uma primeira mão corajosa se eleva e o papo começa.

Conhecido por ser extremamente detalhista e exigente, Wes Anderson parece ter um elenco de base já previamente formado – contando com atores como Bill Murray, Owen Wilson e Jason Schwartzman. Todos presentes em “O Grande Hotel Budapeste”, em papéis menores. Todavia, apesar de não abrir mão de seu fiel elenco, este novo filme traz alguns rostos inéditos para o seu mundo e um, em particular, inédito para todos nós.

O primeiro deles é Jude Law, que aqui encarnou “O Escritor” – personagem baseado no autor Stefan Zweig. Mesmo não tendo sido “O Grande Hotel Budapeste” uma adaptação de nenhum dos romances de Stefan, o filme tem como ambição ser uma espécie de homenagem à obra do autor. Um dos favoritos do diretor americano, Stefan Zweig foi um escritor judeu nascido na Áustria que sempre teve a Velha Europa como seu tema principal; mas que acabou sendo obrigado a mudar-se para o Brasil em meio à Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, ele chegou até mesmo a escrever sobre sua nova terra, chamando-a de “país do futuro”.

Já a inspiração pro personagem interpretado por Ralph Fiennes, o concierge galã do mais famoso hotel da fictícia República de Zubrowka, veio da vida pessoal de Wes Anderson. Trata-se de um de seus melhores amigos, do qual ele deliberadamente roubou a personalidade. E apesar de não revelar o seu nome, ele diz que caso tal amigo estivesse presente não sobraria espaço para dúvidas, tamanha
a semelhança.

Outro rosto novo na filmografia de Wes Anderson – mas desta vez novo em qualquer filmografia – é o de Lennart Meyer. Um ator debutante que teve a sorte de ir parar nas mãos de um dos mais comentados diretores da atualidade. Wes conta que o seu desejo era o de revelar alguém novo no papel de Zero, o garoto do lobby. Para isso, sua equipe viajou a alguns países do Oriente, como a Índia e o Paquistão, e fez diversos testes de elenco. No entanto, apesar dos quilômetros percorridos, o garoto perfeito pro papel foi encontrado numa pequena cidade perto da Disney World, em solo americano. Uma ironia que o faz rir.

Também a atriz francesa Léa Seydoux, recentemente muito elogiada por sua atuação em “Azul é a Cor Mais Quente”, aparece nessa coleção de estrelas. Ela interpreta uma das criadas da mansão da Duquesa, personagem da qual morte desencadeia todo o enredo do filme. Depois de ter trabalhado com Wes Anderson em uma série de comerciais intitulada “Candy”, da marca Prada, o diretor decidiu que a queria em seu próximo filme. O pedido para fazer um papel de ponta foi aceito, mas pela admiração que ele nutre pela atriz, podemos esperar ver mais da Léa nos seus futuros projetos.

 

Perguntado como conseguiu reunir tantos talentos em um único longa sem ter que fazer uso de um orçamento bilionário, o diretor explica que a sua relação com os atores é como a de uma estranha família. No hotel em que ficaram todos hospedados durante as filmagens, por exemplo, na cidade alemã de Görlitz, ele descreve o clima como uma grande colônia de férias em que todos estavam à trabalho. E com um tom bem humorado, ele diz que o seu segredo é sempre contratar um bom chef. Assim, se todos ficarem satisfeitos com a comida, ninguém irá embora.

Sobre algumas críticas recentes de que o seu estilo de direção deixa as atuações um tanto quanto rasas, Wes explica que não há um pedido específico para que seus atores falem num ritmo apressado; mas que a própria natureza dos seus diálogos, com falas longas e às vezes até complexas, obriga a uma postura um pouco “surreal” – ainda mais em situações cotidianas. O tom de fantasia é, de fato, um dos objetivos que o guia em seu estilo de direção. Realismo não parece o interessar.

Outra forma de distanciar o espectador de uma possível percepção realista é a constante simetria e a perfeita combinação de cores em cada quadro de seus filmes. Para “O Grande Hotel Budapeste” especificamente, o diretor decidiu que o hotel em seu tempo de glória deveria se assemelhar a um grande bolo de casamento. Enquanto que, mais à frente na história, ele deveria trazer cores dos anos 70 e formas que remetessem à arquitetura comunista. Algo mais sério, pois a República de Zubrowka havia passado por uma guerra. Mas sempre exagerado, sem dúvidas.

Já a simetria parece ser um tema delicado para Wes Anderson. Apesar de tão facilmente perceptível, ele diz que não a calcula propositalmente. O que nos faz pensar que ela deve vir naturalmente de sua personalidade perfeccionista. Ele admite, no entanto, que compõe o enquadramento de uma forma tão milimétrica que por vezes não há nada além do que vemos.

No fim da noite, aquela que vos escreve já havia treinado uma piadinha de mal gosto envolvendo o nariz do Owen Wilson e a simetria tão presente nos filmes do diretor, mas resolveu ficar calada para não causar comoções impróprias.

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3 comentários em “Um bilhete só de ida para Zubrowka, por favor.

  1. Adivinha que eu tava baixando legenda pra esse filme pra assistir enquanto lia blogs e vi sua resenha? E foi muito sem querer.. hahaha. Ando ansiosa pros filmes do Wes Anderson porque mesmo com um estilo especifico, ele sempre consegue fazer algo interessante e diferente. Numa época de mais dos mesmos indo sempre pro cinema e chamando atenção é bom ver que existem alguns diretores que ainda interessam a população geral de uma forma única.

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