Only Lovers Left Alive.

Pressa não é um conceito conhecido por aqueles que o tempo não pode tocar. E portanto tudo se move lentamente, os dias são engolidos por uma névoa onírica. Nada passa, apenas permanece.

Assim são as vidas (?) de Eve e Adam, um casal que nada abala e que tudo viu. Os protagonistas de “Only Lovers Left Alive” são na verdade vampiros seculares, quiçá milenares, que sobrevivem à sua maneira. Diferente de outras histórias de vampiros já contadas, esses aqui são muito mais humanos do que poderíamos esperar.

Para eles tudo parece fluir. Até que Adam, um músico recluso amedrontado pela própria fama, se cansa da permanência estática que são suas horas e declara querer dar um fim a tudo. Eve vê-se então obrigada a pegar um voo de sua cidade, Tanger, no Marrocos, para reencontrar seu amante em Detroit e tentar salvá-lo. Outra cidade não poderia expressar melhor a decadência concedida pelo tempo, algo que ambos conhecem apenas como espectadores.

Os dias se passam na noite. Juntos, eles exploram a cidade e expõem suas glórias do passado, nos apresentando a ilusão do sonho americano. O simbolismo dos seus questionamentos pessoais é aqui materializado por cenários em ruínas.

Ruínas do Teatro Michigan, hoje um estacionamento

Em suas conversas mais banais, eles falam sobre amigos como Kafka, Tesla, Byron e até Shakespeare. Alguns até mesmo serviram de canal para a publicação de suas próprias obras e descobertas. São também confrontados com questões práticas na rotina de um vampiro: sangue infectado por drogas e, portanto, venenoso, ou a dificuldade em esconder suas identidades. Mas mesmo seus problemas são abordados com um tom tão melancólico que chega a ser anestésico.

A própria relação à distância dos protagonistas expressa a tranquilidade dos que têm certeza do eterno. Ambos vivem livres, cada um do seu lado do mundo, mas permanecem ligados por um laço infinito. Essa ligação quase esotérica do casal é então explicada pela “teoria da ação fantasmagórica à distância” de Einstein; segundo a qual duas partículas quânticas podem se entrelaçar de forma que o que acontecer com uma, refletirá instantaneamente na outra ainda que em extremos opostos da galáxia. Suas almas antigas são como partículas entrelaçadas.

O toque final fica por conta da trilha sonora, dominada pelo post-rock nostálgico de Adam. A combinação não poderia ser melhor e nos envolve por completo. Pra mim ficou a impressão de que Jim Jarmusch aperfeiçoou o tema “vampiros” no cinema com conhecimento de causa. E quem duvidaria?

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