Cartas.

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Letra de professora redonda e cheia de floreios, letra de criança meio tremida e insegura ou letra inclinada clássica e bem desenhada. Algumas pessoas escolhem uma e outras tem todas essas ao mesmo tempo, como eu. Uma pra cada ocasião e tipo de relação. Pra assinar documentos de um jeito, pra anotar o curso de outra e pra escrever cartas, a que combinar com o humor.

E por ser cada vez mais raro usarmos nossas letras como elas são ao invés de formas pré-definidas; acabo por me convencer que conhecer alguém passa por conhecer a sua letra. E talvez esse seja o maior motivo pelo qual envio cartas, em pleno ano 2014. Porque algumas pessoas, mas apenas algumas poucas pessoas, merecem que sujemos as nossas mãos de tinta, que rasguemos uma folha do nosso caderno e que caminhemos por alguns quarteirões para enviar-lhes palavras que logo envelhecerão na pressa do dia a dia. Mas que graças ao seu suporte físico, são mais difíceis de serem ignoradas ou esquecidas.

Não se compara a mandar um e-mail ou uma mensagem de texto. Porque escrever cartas é outra coisa. É transpor-se no papel, é colocar-se na tinta e se enviar num envelope. Tem traço, toque e essência. Escrever uma carta precisa de tempo, caneta na mão e linhas a serem preenchidas com o que se é.

Ademais, não posso deixar de pensar que o envelope ele mesmo terá sua própria história – independente da do destinatário-remetente, independente da história que ele leva em si. Ele passa por paisagens e experiências que cabem unicamente a si, criando a história secreta da carta – uma história secreta e não contada porque é pra isso que cartas servem: para contar histórias dos outros e não de si mesmas.

Então, eventualmente, alguém segurará o papel que eu teria lacrado. E vendo minhas letras, escritas um pouco tortas com minha mão esquerda, enfim me lerá sem que nenhuma Times New Roman nos separe.

Apenas não me responda com um e-mail, porque isso eu já não posso suportar.

PS: Tudo isso porque tenho mandado mais cartas do que nunca e porque o novo clipe do Metronomy, do Michel Gondry, só me faz querer continuar com essa mania tão século passado.

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5 comentários em “Cartas.

  1. Sabe que eu achava ser a única que tinha mais uma de letra para diferentes ocasiões? Rsrsrs… Me sentia meio estranha por isso, mas é bom saber que não tô sozinha nesse barco!
    Sobre cartas, gosto um bocado, mas faz algum tempo que não me dedico a escrever uma! Não sei porque… talvez preguiça, talvez pouca inspiração… Hoje em dia só escrevo cartões. Mas de fato, são um meio de comunicação que poucas pessoas merecem!

  2. Adoro escrever cartas. Faço sempre quando necessário, em lugar de enviar email. Escrevo muito pouco com minha própria letra, manter uma espécie de diário de leitura me ajuda nisso. Letras são lindas e, num mundo cada vez mais iconográfico, espero que nossas letras não sejam esquecidas.
    Abraços.

  3. Mas que delícia de post e de blogue!
    Encontrei essa postagem logo após ter resolvido escrever uma carta para esclarecer alguns desentendimentos.
    De fato, poucos merecem um ato tão bonito e simbólico.

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