Aquela palavra.

Numa sala de dezesseis alunos, eu sou a única estrangeira. Quer dizer, há também uma garota belga que mora na França desde pequena. Mas os belgas não são considerados estrangeiros por aqui – apenas sofrem com uma ou outra piadinha do estilo “piada de português”, mas não são estrangeiros. Então restou eu, a única que não entende como pode haver uma lua cheia no céu na hora em que se chega à Universidade. A única que solta um “como é!?” involuntário na hora da prova.

Acabou que assim virei motivo de cuidado e curiosidade. Todo mundo quer me ajudar com as anotações e todo mundo quer saber um pouco mais desse lugar de onde vim no Brasil que, surpreendente, não se chama “Rio”. Querem saber como se fala isso ou aquilo, às vezes me perguntam sobre palavras soltas que escrevi no Facebook e vivem me pedindo pela receita de brigadeiro, como se fosse o maior mistério da humanidade.

Foi assim que outro dia um colega resolveu tirar uma dúvida comigo: “O que é ‘saudade’?”, ele veio perguntar. Comecei já explicando que era difícil de explicar, disse que é algo que eles não tem aqui. Enquanto eles sentem falta de algo ou de alguém, nós que fomos amaldiçoados com essa palavra danada acabamos imersos num poço de nostalgia melancólica que não tem fim. É um suspirar sem fôlego, uma memória viva, uma agonia e vontade de correr. Não é um “trouble”, é um perrengue. Sentir falta é besteirinha, mas sentir saudade é coisa séria.

E a pior parte eu ainda estava pra descobrir: é que quanto mais você fala nela, mesmo que seja tentando explicar o que ela é, mais ela cresce. Por isso estou preferindo dizer por aí que sejaláoquefor me faz falta. Só não me permito falar em saudade porque saudade é coisa grande demais e cresce sem pedir licença.

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7 comentários em “Aquela palavra.

  1. Cheguei aqui de link em link, gostei do visual, fiquei pelos textos ótimos e achei massa ser conterrânea! Não costumo comentar em blogs, mas, achei que seria educado me apresentar antes de sei lá, sair lendo os arquivos, hehehe.
    Boa sorte com a adaptação e com as saudades, que não abandonam a gente nunca.
    (ps. para os que pedem receita de brigadeiro, manda eles lerem esse post, hehe:https://chegadelirismo.wordpress.com/2013/05/31/o-segredo-da-vida/)

  2. A “saudade” é como o “amor”: coisa grande demais e cresce sem pedir licença. Acho que por isso, um tá quase sempre ligado ao outro.
    Gostei do texto. Favoritei o blog. Sou escritor e cartunista e se você quiser conferir meu trabalho é só clicar. Eu volto. Abraço.

  3. Essa saudade de quando estamso longe de casa, da nossa terra, de tudo aquilo e de todos que conhecemos tão bem, parece que cresce rápido e não passa e vai formando uma coisa ruim dentro da gente. Engraçado não existir a palavra ” saudade” em outras línguas. Afinal, você está em que país ?
    Beijos
    ADOREI SEU BLOG, by the way !
    barradosno-baile.blogspot.com

  4. É temos o privilégio de ter uma palavra do nosso vocabulário que fica complicado explicar, fora daqui. Talvez, seja essa diferença, nós damos oportunidade de sentir ” saudade” e viver uma nostalgia, o que muitos devem sentir e não saber definir. Adorei o estilo do blog.

    Bekigirl

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