Entendimento interestadual.

Em Curitiba, é comum as pessoas não entenderem o que falo, principalmente e inexplicavelmente, em estabelecimentos comerciais localizados na rua Marechal Deodoro. Fico na dúvida se é porque falei baixo demais ou se não articulei o “t” e o “r” com o fervor necessário. Na tentativa de ser compreendida, me esforço pra resolver todas as questões de uma só vez – o que resulta na minha pessoa falando quase aos berros como uma vó surda de 102 anos vinda do interior.

Às vezes tenho a impressão de que é muito mais fácil ser entendido fora do país do que sair pulando de um estado brasileiro para o outro. Isso porque, dentro do seu próprio país, “seu território”, você corre o risco de acreditar que as pessoas vão te entender quando você conversar com elas e age de acordo com essa crença. No entanto, é bem provável que ninguém entenda nada; mas finja que entendeu. E aí você vai ser sempre aquela pessoa que ninguém entende, mas para a qual balançam a cabeça mesmo assim. Já se você se mandar pra fora, a não ser que você seja um poliglota arrogante, a postura mais comum a ser assumida é a de presumir o não entendimento por parte do interlocutor. Isso te torna mais cuidadoso e te dá mais chances de ter sucesso numa conversa. É a tese. Bem furada, admito.

Por exemplo. De onde eu venho, a gente usa “capaz” pra concordar com alguma hipótese. Situação: saímos à rua, um amigo olha pro céu e fala “Acho que vai chover”. Para concordar eu digo “Capaz”, de forma curta e em geral acompanhado com um leve balançar de cabeça em sentido positivo. Por aqui, é justamente o contrário. Saímos à rua, um amigo olha pro céu e fala “Acho que vai chover”. Se alguém diz “Capaz”, alongando a segunda vogal “a” e fazendo cara de descrença, é discordância completa.

Ao não prestar a atenção devida aos sinais corporais, já acabei concordando com hipóteses contrárias e discordando do que concordo. Então além de vó surda de 102 anos vinda do interior, também pareço um pouco senil.

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Um comentário em “Entendimento interestadual.

  1. Eu tenho um sério problema com isso porque moro no Norte e a gente usa ‘mana, maninha, caboca, carapanã’ e outras coisas que o pessoal não usa ou tem significado diferente e quando vou visitar amigos em outros lugares todos ficam “?!”. Hoje em dia eu consigo mudar um pouco o vocabulário dependendo do lugar, e em outros casos eles se adaptaram, mas falando com desconhecidos eu me sinto quase uma aeromoça ou algo do tipo, me policio demais.

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