Spam na França.

Se você chega pra alguém e grita “França!”, a pessoa terá em mente diversos elementos representativos do imaginário geral sobre o país – os perfumes franceses, a Torre Eiffel, os queijos, e por aí vai. Dizem que a França é o país que mais acumula clichês. Tanto que tiveram que inventar uma palavra pra isso.

Já quando eu penso na França, uma única coisa me vem em mente: dossiês. Se for pra colocar a Torre Eiffel no meio, o meu raciocínio seguirá da seguinte forma: “Quantos dossiês será que foram necessários para construí-la?”.

Explico: “dossiê” é  como eles chamam a coleção de documentos que você nem sabia que existiam. Na França, pra se resolver uma questão, qualquer questão, não basta um, dois ou três dossiês – é preciso também um dossiê superdesenvolvido, quase um transformer dos dossiês; e ainda alguns e-mails estressados que acabam, ironicamente, com “cordialement“. Tudo vira burocracia, palavra que também vem do francês: “bureau”.

Depois, temos os amáveis rendez-vous. Que não é nada como a palavra e o seu uso no Brasil sugere. Do outro lado da mesa não tem um cara bonitão te oferecendo vinho e certamente não será em um bistrot. A verdade é que sempre haverá um funcionário mal-humorado dizendo pra você que o computador dele não o permite que coloque um acento agudo em “ó” de “Maceió” do jeito menos sutil possível. À la française. De novo, não com a conotação à qual estamos habituados.

Atualmente, me vejo pela segunda vez na vida enrolada envolvida em toda a burocracia francesa. Na sua melhor forma e sem limites. Encontro-me a um passo minúsculo de criar um grupo de apoio para “Dependentes de Dossiês” e sei que contaria com um número bem alto de adeptos. Felizmente, hoje, eu começaria me apresentando da seguinte forma: “Olá, meu nome é Mariana e faz vinte e seis dias que não mando nenhum dossiê ou e-mail pra França”. Mas não cheguei a esse ponto sem causar estardalhaço por parte do meu interlocutor, que chegou até mesmo a utilizar a expressão “si et seulement si” (“se e somente se”). Claro, porque dependências sempre causam estragos nas nossas vidas e relações sociais. Da última vez, o cara encarregado do meu processo passou a me evitar pelos corredores da Universidade, me passou pra outra encarregada. Não o culpo, é mesmo difícil lidar com viciados.

O ponto mais baixo da minha crise, acredito, foi quando o meu namorado passou a me impedir de escrever e-mails, ouvir Camille e citar a palavra “dossiê” – com ou sem biquinho. No momento, estou num processo de desintoxicação, antes que ocorra de um alarme ser enviado a todos os courriels e eu acabe virando spam por tempo indeterminado. O que, tenho certeza, é algo possível e que ocorreu com o Gerard Depardieu.

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Um comentário em “Spam na França.

  1. Hahaha, vi esse vídeo dos clichês e, realmente, é assim que não-franceses vêem a França. Assim como nós, brasileiros, temos complexo de inferioridade.
    Eu nunca pensaria em burocracia em se tratando da França. Quando essa palavra surge, eu pensaria em croissant, porque adoro e porque, invariavelmente, ando com fome.
    Abraços.

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