Velha demais.

Fiquei sabendo que no fim de semana teria uma feirinha com temática japonesa no parque ao lado do museu, incluindo barraquinhas com artigos inspirados na cultura nipônica, apresentações musicais e de dança, além de uma praça de alimentação. Parece ser uma boa para uma tarde de sábado, me ajudando a matar duas intenções numa ida só: passeio pra mim que tenho o Japão na lista de futuros destinos e turistagem pra visita. Ainda com previsão de céu aberto para o dia todo, fica ainda melhor.

Só que o sábado amanhece e a vista da janela contraria as previsões: vai chover, e sem dó. Coragem, vamos mesmo assim.

Ao descer do ônibus, me dou conta logo de cara que o público do evento é predominantemente de garotas de cabelo descolorido, uma ou outra usando peruca, garotos também de peruca, pessoas de jeitos indescritíveis com fantasias igualmente indescritíveis e em torno de 87,3% de camisetas pretas, boa parte acompanhada de tocas com orelhinhas – do diminutivo de “orelhas”, sim. Alguns Finns, nenhum Jake.

Ainda próximo à parada, duas garotas conversam e uma delas dispara, em tom de ousadia pura: “Eu até pediria para o meu pai vir me buscar, mas ele não sabe que estou aqui”. A segunda concorda e, para não ficar pra trás, emenda: “Nem o meu” – são cúmplices. Ainda é dia, em torno das 14hrs sem sol, e estamos bem ao lado do maior museu da cidade – mesmo assim a sensação de rebeldia exala daquele diálogo.

Mais à frente, um grupo de meninos e meninas de cabelos com estilos variados. Uma garota baixinha com olhos bem marcados pela maquiagem escura leva uma garrafa de vodca já no final à boca e em seguida a ergue, oferecendo pros outros da roda: “Quem quer!?”. Risos.

Com um relance, é possível perceber que ali não tem ninguém acima dos vinte anos, ainda há tempo pra ser meio bobo e se sentir transgressor nos pequenos atos. Todo o contexto me faz sentir um pouco de vergonha alheia do Eu-há-uns-oito-anos-atrás (e nem faz tanto tempo): sempre de All-star salpicado com tinta, cabelo escuro com franja cobrindo parcialmente os olhos, piercing no nariz, às vezes meia-arrastão, e um abuso incurável de tudo e de todos – página no Fotolog obrigatória. Nessa época eu ouvia 30 Seconds to Mars e eles nem tinham clipes tão legais, queria citar autores de nome complicado, mas não curtia Nietzsche.

No vão do museu, alguns garotos ensaiavam passos de dança que me lembram o estilo do ‘N Sync, mudando constantemente a formação da coreografia e com direito a alguns destaques solo, ao mesmo tempo que seguem com os olhos seus próprios reflexos nos vidros da galeria. Pergunto-me se boy bands voltaram em algum momento entre os anos 90 e agora – acho até que sim, mas não me recordo de nenhuma delas ser dançante.

No fim das contas, a feirinha estava decepcionante e na praça de alimentação só se sentia cheiro de fritura. Em certo ponto um garoto acertou outro com uma espada de plástico, ao qual este reagiu com um sonoro lamento. Em meio a tanta adolescência, pergunto à minha mãe como ela me aguentou naquela fase. “Apenas soube respeitar aquele seu momento”, uma boa resposta. Mas eu, eu mesma, sinto-me um pouco ultrapassada por não mais entender “aquele momento”. Parece que pulei da adolescência direto pra terceira idade, apenas aguardando a materialização de um tricô nas minhas mãos. Só consigo lembrar do bordão de Danny Glover em Máquina Mortífera: “I’m too old for this shit!”.

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5 comentários em “Velha demais.

  1. Cara, seus textos são uma delícia de ler e muito engraçados hahaha.

    Imagino como você deve ter se sentido, acho que se eu encontrasse com a minha versão aos 15 anos, seria totalmente tomada pela vergonha alheia e pensamentos de pesar sobre as dificuldades da adolescência. Chega a ser engraçado como é tão diferente, né?

    Adorei o seu blog 🙂

  2. No momento em que eu chegasse lá, a velhice nem passaria pela minha cabeça, com certeza. Me conhecendo do jeito que conheço, iria pensar algo do tipo: “Porque essa feira tá infestada de pirralhos?” E ia sair de lá meio chateada com isso e com o fato da área gastronomica ser só fritura.

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