Quanto custa R$ 00,20?

sp em P&B.

Semana que vem estou indo a São Paulo, sempre gostei de ir a São Paulo. Faz já alguns meses que não vejo a minha mãe, então escolhemos nos encontrar lá. Decidimos o que faremos, a turistagem toda, e há um mês que já avisei aos meus amigos que quero encontrá-los: ver alguma exposição, tomar um café e conversar da vida. É gostoso conversar da vida…

Hoje meus planos não fazem mais sentido. De um lado, órgãos da mídia que respeito se confundem com as palavras “vândalo” e “manifestante”; outros que nunca respeitei criam uma cobertura dos recentes eventos apelidando-os carinhosamente de “marcha do vandalismo” e Arnaldo Jabor, com sua eloquência e minutos de legitimidade na TV aberta, coloca a cereja no bolo ao ridicularizar as manifestações. Diz ele que a maioria dos manifestantes são de classe média, caricaturas de caricaturas de comunistas, não sabem pelo que protestam, desconhecem a PEC 37. Enfim, “uns desocupados”.

Para esses é sem vergonhice o meu amigo que estuda na Belas Artes ou o outro que frequenta a USP terem saído do conforto de suas casas para reivindicar o almoço do gari Célio Ferreira. Para esses, sempre que levantamos o dedo para um Estado que nos ignora, estamos copiando uma ideologia “do passado”, jovens sem causa querendo fazer bagunça (alguém tem um exemplar de O Capital para eu ler a caminho da Paulista, por favor?). Para esses, são apenas vinte centavos.

Até parece.

Ainda tem o Datena, que mudou de opinião ao vivo depois que uma enquete em seu programa mostrou que seus espectadores são esmagadoramente a favor das manifestações. Não serei ingênua de cantar “Metamorfose Ambulante” em homenagem a ele. Sei que sua mudança de postura nada tem a ver com mudança de mentalidade e sim com números de audiência; mas ei, menos um.

Difícil não se indignar ao ver vídeos em que pessoas comuns, batendo palmas enquanto pedem “sem violência”, acabam alvejadas por balas de borracha e sufocadas com gás lacrimogênio. Ou quando vemos flagras de policiais quebrando vidros das próprias viaturas (será que é pra ficar bonito na Globo?). Pior ainda é chegar em casa e ver a mídia dando 100% de atenção a cinco caras que resolveram fazer quebradeira em meio a milhares. Fomos traídos pelo nosso Estado, fomos traídos pelos nossos meios de comunicação. E agora? Só não podemos trair a nós mesmos e é num momento como este que a internet mostra seu valor. Passamos por cima do noticiário, informamo-nos mutuamente para conseguir informações mais próximas à realidade, tentamos da melhor forma possível escrever a história sem nos deixar domar. O desejo dos governantes de ter uma Copa das Confederações com o país todo bonitinho não confere com nosso cotidiano. Desta vez, gringo vai ver a verdade.

Hoje pensei muito sobre o meu posicionamento enquanto cidadã, pessoa comum que sou. A verdade é que nunca me senti tão envergonhada das nossas autoridades ao mesmo tempo que orgulhosa de nosso povo. Saímos do conformismo de protestar pelas redes sociais porque vimos que isso não surte efeito. Chega de ficar só na admiração pelos franceses inquietos e os turcos revolucionários. Depois do fim da ditadura e com uma economia crescente, manifestações como a que vemos hoje deixaram de ser comuns no Brasil. É a primeira vez que a minha geração vê algo assim, não estamos acostumados e portanto é fácil deixar-se enganar por “jornalistas renomados” que tomam chá das cinco de dedo mindinho levantado. Mas pior do que lutar numa ditadura autodeclarada, é enfrentar uma democracia falha, em que os partidos somente representam a eles mesmos.

Se eu estivesse hoje em São Paulo, não sei se iria às ruas. O motivo é simples, simplório: tenho medo. Não sou jornalista de nenhum veículo importante, não represento movimento qualquer, e tenho medo de não ser ouvida, de atirarem em mim enquanto peço pela não violência, de ser presa por carregar vinagre pra temperar o frango do almoço, de levar na cara enquanto tento voltar pra casa.

Sou melhor com as palavras, então, para o Jabor e aqueles que com ele compactuam, tenho algumas delas. Primeiramente, orgulham-me os meus amigos que foram protestar legitimamente por uma causa que é antes das classes menos favorecidas do que a deles. O nome disso é exercício de cidadania e nada tem a ver com ideologia partidária, tem a ver com ser gente ativa – sabe? Ci-da-dão: palavrinha esquecida, mas que vale à pena ser citada. E falo “antes” porque existem ainda reivindicações extras para além R$ 00,20, mas que devem reforçar o coro desta. É a inflação, é o espetáculo da corrupção na Copa, são os Felicianos da política, é a PEC 37 também, sim, é ______________ (insira aqui a sua reivindicação). É querer jogar o nariz de palhaço longe, demitir-se do circo!

Para os que quiserem contra argumentar com “E se o seu parente estivesse preso numa ambulância querendo passar pela Paulista fechada pelos ‘vândalos’?”, adianto-me. Nesse caso, eu pensaria: “Que merda, ein? Mas se fosse outro dia qualquer na Paulista, talvez fosse ainda mais difícil da fictícia ambulância passar já que o trânsito nessa via, como em tantas outras, é sufocante. E por que isso acontece? Ah, deve ser porque as pessoas estão comprando carros demais. Mas peraí um segundo, por que elas não usam o transporte público? Êpa, talvez porque este é ineficiente e ainda assim se vê na razão de tirar mais vinte centavos do meu bolso, então melhor financiar um carro”.

Pra finalizar, a imagem acima é uma fotografia que tirei na Estação da Luz num dia de semana às exatamente 18hrs. As pessoas tomam cuidado enquanto o trem se aproxima, a linha amarela de segurança já foi há muito ultrapassada e cada qual tenta se equilibrar na beirada dos trilhos. Quem vai conseguir entrar desta vez é uma roleta russa: depende de onde as portas irão parar, depois da força de seus “oponentes”. O trem para, alguns se apoiam com as mãos contra ele para não caírem no vão, os que conseguiram chegar à porta debatem-se, uns contra os outros, e são sempre os homens que conseguem vencer a batalha por um assento depois de um longo dia de trabalho. No meio da confusão, uma grávida leva algumas cotoveladas e prefere ficar pra trás – é mais prudente. A cena acontece todos os dias, bem ali.

Quão caro podem ser vinte centavos, não? Podem custar a sua dignidade.

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2 comentários em “Quanto custa R$ 00,20?

  1. Isso é só o começo!A garotada é mais violênta,a Policia sempre foi o que é,Muro de concreto sem razão sem dó! Hipócritas!todo mundo usando o seu lado,mais para quem é de algum lado escolhemos o correto aquele que grita qndo pisam no pé.Borá lá Brasil,fora os exageros o resto me orgulha foi assim que já deportamos um presidente vcs não que o Governador já durou muito? e não devemos esquecer do que tá pintando em Brasilia Indios e lei do Aborto.Acorda Véio!

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