Questão de identidade.

Há uns oito anos me mudei para Maceió. Uma dessas mudanças meio malucas para uma cidade na qual você não conhece ninguém e onde as pessoas não sabem o que você quer dizer quando pede um “dudu” (também conhecido como “flau”, “geladinho”, “peito de véia”, e o que mais vier). Sendo nova na cidade, o questionamento sobre de onde eu vinha era recorrente. De forma automática, passei a responder que vinha de Recife. Foram quatorze anos por lá, dando tempo suficiente para que a minha formação de recifense barrista torcedora do Sport moradora de Casa Forte frequentadora da John’s (chamada por nós de “Jônis”) fosse concluída. Recifense tradicionalíssima.

O disfarce durou por muito tempo, até que um dia uma amiga resolveu pegar a minha identidade e lá estava escrito: Salvador – BA. Veja bem: existe uma rixa enorme envolvendo Recife e Salvador, estando Maceió bem no meio da confusão – correndo de um lado pro outro ao mesmo tempo que tenta ser quem é. Passei a ser vista como uma agente infiltrada. Mas a verdade é que de Salvador só tenho mesmo a Certidão de Nascimento, meros dois anos de estágio probatório (dos quais suspeito não ter sido aprovada), o amor por acarajé com pimenta e a minha baiana interna, sempre adormecida e invocada quando é necessário “soltar a baiana”.

Conjuntamente à minha recém-mudança para Curitiba, me surge a oportunidade de começar do zero e dizer de onde realmente sou. Mas sempre que a pergunta surge e ensaio a língua pra dizer “Salvador”, a resposta não sai. Não sei pra que lado fica Ondina nem nunca fui atrás do trio-elétrico e isso por si só é motivo suficiente pra justificar a minha não-soteropolitanidade. Ou eu acabaria por fazer os meus conterrâneos morrerem de vergonha.

Até hoje nunca vi ninguém botar o dedo na cara do Ariano Suassuna para acusá-lo de falso recifense. O que é preciso fazer para merecer tal alcunha? Porque eu acho que ser tipo Ariano Suassuna está um pouco distante pra mim. E como o meu problema de origem é questão afetiva, hoje respondo que sou de Recife, mas venho de Maceió. Somente citando Salvador quando o meu namorado me obriga.

A farsa continua. Ariano, estamos juntos nessa.

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4 comentários em “Questão de identidade.

  1. Adorei. Isso é um problema recorrente das pessoas como nós os “Tavares” mais conhecidos como “ciganos infiltrados” em todos os domínios do mundo diga-se de passagem. Aqui também quando digo que sou baiana o povo me sai com um ‘nem parece”, mas óbvio o acarajé nos entrega a todos.

  2. ás vezes acho que tenho essa problemática da identidade também. Moro no Rio de Janeiro desde sempre, mas passei apenas por dois bairros bem diferentes: um da periferia e outro classe média. Toda vez digo sem medo “Moro na Tijuca, mas nasci no Engenho da Rainha, conhece? tem metrô!” hahah

  3. Nasci na Bahia, mas cresci e vivi em pernambuco até meus 20 anos. Há 13 moro em Salvador. Nunca compreendi como dois estados do Nordeste são tão diferentes. Nos primeiros anos, sempre me achei um total estranho aqui, como se tivesse vindo de um outro país. Hoje, passado esse tempo, continuo me sentindo pernambucano, mas já adquiri alguns hábitos baianos. Sem querer e perceber, agente vai incorporando alguns elementos da cultura. Percebo hoje que é muito forte a influência do lugar onde passamos nossa infância, onde crescemos, vivemos nossa adolescência. É justamente durante essas fases que construímos nossa identidade e personalidade. Então, apesar de ter nascido na Bahia e morar aqui há mais de uma década, minha identidade cultural é pernambucana, as referências são de lá, meu sotaque é de lá, meu olhar sobre outros estados é sempre a partir de lá e com os filtros de lá. Então, quando me perguntam de onde sou, sempre respondo de Pernambuco, e se surpreendem quando acham no meu RG Bahia.

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