A Etiqueta do MASP.

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Uma fita cinza no chão faz as vezes de um sinal de “Perigo: afaste-se” nos salões do MASP, determinando o espaço máximo de aproximação das obras. Chegou até mesmo a ser cogitada a colocação de caveiras e sinais amarelos com escrita em inglês, acreditando-se que isso seria mais “ostensivo”. Abriu-se mão da ideia porque alguns visitantes provenientes do MAM poderiam confundir as placas com arte moderna.

A cada esquina, um homem de paletó preto escrutina todos os visitantes com o olhar. Se pisar na fita por um descuido que for, o visitante é alertado. Nem a moça de cadeira de rodas fica isenta. Leva bronca como criança na casa da tia chata. Todos são considerados potencialmente periogosos e o clima é de vigilância total. Parece que por ali alguém mudou o alerta antiterrorismo para a cor vermelha e esqueceu de avisar ao restante do país.

Longe dos quadros, nas escadas do museu, as pessoas passam o tempo conversando. Se algum desavisado saca uma câmera, é advertido. “Não tem nenhum quadro por perto…”, o agora já avisado argumenta.  Não, fotografias não são permitidas. Nem sem flash e nem no banheiro, mesmo que nenhuma obra do Duchamp esteja presente. E que tal ir aproveitar o silêncio e bancos do subsolo para descansar enquanto se observa as esculturas vistas de cima? Também não. Nada de se encostar no encosto dos bancos. Dá até pra sentir saudades da tal casa da tia chata.

Às terças-feiras, a entrada é franca, mas ainda assim são poucas as pessoas que entram ali para visitar os quadros, gravuras e esculturas expostas. Talvez pela chuva, eu penso. Ou talvez apenas reafirmando os boatos de que as coisas andam mal pro gigante da Avenida Paulista. Boatos antigos que parecem perdurar, sem muita esperança de reviravolta.

O fato é que existe no MASP um clima de apego sem muita vontade de virar a página. A forma como os seguranças do museu são instruídos nos leva a crer que a arte é algo que pode apenas ser admirada por cavalheiros portando cartola e relógio de bolso. Talvez ainda um bigode bem aparado, charutos importados, e dedo mindinho levantado pra tomar o chá das cinco – mas nada menos que isso.

É só quando um anônimo passa à sua frente, pisa na linha cinza e toca suavemente a cara do Rembrandt que um sentimento de satisfação e aproximação com o que está ali exposto te invade. Ainda que dois ternudos o guiem pra fora e um terceiro fique analisando o quadro de cima a baixo, por ter estado ali presente vivenciando aquele momento de anarquia, é como se você mesmo o tivesse tocado e, assim, sentido a arte fazer parte de você e de um cara de chinelo de dedo e cabelo sujo e bagunçado.

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2 comentários em “A Etiqueta do MASP.

  1. Engraçado como essa postura afasta visitantes de quase todos os postos de arte de São Paulo. No entanto, sempre que escuto “segurança do masp” me vem um sentimento de revolta a tona pelo descuido dos que deixaram uma senhora fotografar o São Francisco em Meditação, do Caravaggio com sua câmera no mais potente flash. Com flash, minha gente.

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