Razão e nostalgia na estante.

Nostalgia é algo perigoso. Faz com que você julgue É o Tchan como algo bacana ainda que sua racionalidade repudie ritmos semalhantes da atualidade. Faz com que filmes de péssima produção e roteiro pobres pareçam uma obra-prima e ainda por cima te levam a comprar livros de autores que já deviam ter percebido que o negócio deles é outro. Tudo isso já me aconteceu e sei que não sou nenhuma exceção. Ao contrário, sou a regra. Uma regra que faz com que a emoção se eleve de tal forma que ela acaba por destruir o bom-senso.

Recentemente, a nostalgia me atacou novamente, falando coisinhas no meu ouvido e me fazendo comprar o novo romance da J.K. Rowling.  Uma tentativa triste e um pouco forçada da autora de entrar num mercado editorial diferente daquele no qual ela se mostrou uma verdadeira mestre: o adulto. Algumas passagens são tão esdrúxulas que te causam uma sensação semelhante àquela de ver um tiozão dando em cima de uma adolescente na balada. “Não dá, desista”. Outras são comparáveis à cara que você faz quando alguém tenta agradar todos ao mesmo tempo, esquecendo a regra dos gregos e troianos. “Você está se esforçando demais, desista”.

Entre uma cara julgadora e outra, ler Morte Súbita me levou a pensar sobre os dilemas no processo de construção de uma obra. Ou melhor, de um conjunto de obras.

De tudo, acredito que o mais assustador seja a estigmatização. Na minha pré-adolescência, li muitos livros que podem ser descaradamente tachados como ruins. Outros que tem a ver com a fase, enfim. Mas nada tão grave como Paulo Coelho. A questão é: como é que todos esses autores que fazem extremo sucesso em um determinado gênero conseguem se desvencilhar dele? Ou isso simplesmente não acontece? Se eu publico um Crepúsculo da vida, e depois escrevo o novo grande romance do século – como fico? Ou não fico? Eu viro o Chico César e sou obrigada a cantar Mama África pra sempre?

Às vezes me pego pensando que talvez o livro da J.K. Rowling seja ótimo; mas que eu não seja capaz de ver isso por ter crescido com outra imagem dela. A imagem de uma contadora de histórias infantojuvenis. A impressão que tenho é a de que todo escritor tem que se impor certo gênero desde sua primeira frase na primeira página do primeiro livro. E essa auto-imposição, que a princípio é uma escolha, acaba por se tornar sua limitação. O que provavelmente aconteceu com a autora de Harry Potter foi que, ao escrever tal série, ela determinou um público bastante específico e levou o seu personagem a evoluir com ele. Eu, por exemplo, li o primeiro livro com a mesma idade que tinha o protagonista, onze anos. Aos dezessete, nos abandonamos mutuamente e o que ficou no meio foi uma história com a qual eu me identifiquei cronologicamente. J.K. então deve ter pensado que seus fiéis leitores estavam prontos para algo a mais, mas parece ter esquecido de pensar se ela estaria, ou se seria aceita nesse novo mundo. Ela se esqueceu da estigmatização.

Desta vez, não consegui ser persistente o suficiente para acabar o livro e desisti de Morte Súbita lá pelo meio. A nostalgia relacionada à literatura da J.K. Rowling agora tem uma mancha gigantesca causada pela minha racionalidade e no fim das contas, farei com esse livro o que já fiz com tantos outros: ir ao meu sebo preferido e trocá-lo por uma escolha menos… Sentimental, digamos.

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3 comentários em “Razão e nostalgia na estante.

  1. mariana, aquelas fotos do post foram tiradas com câmera analógica. por isso a cara bonitinha delas. em geral, não uso actions mas apenas ajusto as curvas das fotos…

    1. bem que eu desconfiei, mas achei que os grãos estavam tão pequenos que talvez fosse digital. ficaram lindas, enfim.

  2. Mariana, quem amou seu blog foi eu e minha esposa HAHAHAHAHAHA, Adorei a sua visita e seu blog, com certeza, vai fazer parte dos links que a gente ler. Espero que mantenhamos o contato para trocarmos mais experiências das nossas relações pessoais ^^

    beijo

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