Recife ao avesso e na tela.

kleber mendonca filho

Na varanda da minha avó, eu me balançava na rede enquanto observava o horizonte limpo do bairro de Casa Forte. À vista, apenas um céu azul e nada mais. Até que um dia, algo despontou como um dente. Por meses acompanhei à distância a evolução daquela torre, me perguntando quando ela iria por fim estagnar. Demorou. A esta seguiram-se muitas outras e o horizonte agora se encontrava completamente tracejado.

A minha melhor amiga conheci na piscina do prédio em que morávamos. Bricávamos de esconde-esconde por entre os carros no estacionamento, andávamos de bicicleta por ali mesmo e nunca saíamos sozinhas, nem mesmo para ir à aula de inglês na esquina. Onde o meu pai morava, podíamos jogar bola na rua. Esta, sem saída e com um segurança logo à entrada.

Fiquei pensando sobre os balanços da rede e esses pedaços de infância superprotegida enquanto assistia a O Som ao Redor, primeiro longa ficcional do diretor recifense Kleber Mendonça Filho. O filme continuou comigo à noite. Sonhei que estava perdida numa espécie de dimensão paralela e não conseguia separar o que era filme e o que era realidade. Tendo crescido no contexto da classe média recifense, era como se não houvesse linha que pudesse separar a minha realidade daquela pretensa ficcção que passava na tela. A cenografia me pareceu tão natural que eu podia apostar que aqueles apartamentos já eram daquele jeito e que a produção pegou tudo pronto. Os quadros feios de um artista que ninguém sabe quem é, as molduras douradas, as mesinhas espelhadas e alguns objetos da Tok&Stok aqui e ali. Ah, e os apartamentos da Moura Dubeux.

De cara, fiquei tão impressionada pela proximidade daqueles elementos que me foi difícil ver o filme apenas como um filme. Para um recifense, ver O Som ao Redor equivale a ser novaiorquino e assistir a um filme do Woody Allen. A cidade é a grande protagonista e tudo o mais acontece através dela.

Logo que o filme acabou, fiquei me perguntando por que raios o NY Times o tinha eleito como um dos dez filmes mais importantes do ano. A resposta me veio aos poucos. É falando de coisas aparentemente banais e cotidianas que o filme trata de cicatrizes profundas, tão profundas que mal percebemos se não forem colocadas numa tela de 5mx12m. A maldita herança dos engenhos, a incômoda presença do passado escravocata bem ao lado dos shopping centers, a luta por espaço e a força de um mercado imobiliário incansável. Tudo isso constitui o retrato de uma cidade construída sobre solo movediço.

Fiquei dividida entre amar a Recife ou amar ao filme. As duas opções ao mesmo tempo me parecem impossíveis. Aguardo ansiosamente pelo dia 04 de janeiro, data em que o filme irá estreiar no circuito comercial. Quero ver a reação da cidade quando tiver de encarar a própria cara no espelho.

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6 comentários em “Recife ao avesso e na tela.

  1. Exitiu alguma vez alguém que fosse parente consaguíneo de um filme? A impressão que tive lendo seu texto é que os dois, vc e o filme, são no mínimo primos em primeiro grau. Sensível e provocador, seu texto faz jus ao filme e às suas memórias. Parabéns.

    1. Obrigada, Marcelo. Esse filme realmente me marcou, em vários níveis. Ao mesmo tempo que dá uma certa alegria por ser recifense e ver uma obra dessas saindo de lá, causa uma certa angústia provocadora. Mas acho que a intenção foi essa.

  2. Olá, sou um dos atores de O Som ao Redor e testemunho de dentro do filme que Kleber Mendonça Filho veio pra ficar no cinema brasileiro e do mundo.

    1. Ah, disso ninguém duvida. E que bom que, dá um orgulho a mais de ser pernambucana. Aliás, parabéns pelo seu papel. Um dos mais marcantes, um retrato perfeito.

  3. Hey, Mariana. Te achei lá no lomogracinha. Vim sem pretensão nenhuma. Ah vai, achei bonita a foto e cliquei. Vim parar aqui. Cantinho gostoso, engraçado com os textos “sobre o blogue” e “sobre a pessoa”. E você é daqui, de Recife. E escreveu sobre o filme “O Som ao Redor”. Foi ~massa~ ler teu ponto de vista, fiquei com aquela sensação de que gostaria de ter escrito exatamente isso aí, a tua conclusão. Bom, fiz uma coisinha aqui e ali, e ficou muito mais pessoal e viajado. Queria ser mais sucinta como você. Se quiser dar uma lida sobre o que achei do filme, tá aqui: http://escrevacarlaescreva.blogspot.com.br/2013/01/o-som-ao-redor.html

    Não é pretensão, não. É só pelo motivo de eu ter gostado de ler sobre um filme que impacta todo recifense. Aí pensei que você também gostaria de fazer isso, quem sabe.

    Falei demais, tsc tsc. Um beijo!

  4. Posso falar?
    Amo ler o que você escreve. Enquanto eu estava lendo o texto fui lembrando, detalhadamente, do filme. E super vou compartilhar esse texto no facebook.

    Outra coisa: caaaara, você mora aqui também!? Agora vou torcer para te encontrar na Fundação, e assim conversarmos pessoalmente, saboreado as delicias daquele café.

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