A Caverna é aqui.

O Blog da Companhia das Letras lançou há algumas semanas um concurso cultural visando celebrar os 90 anos do escritor português José Saramago, caso este estivesse vivo. É, estamos sempre falando que “fulando estaria completando tantos anos se estivesse vivo” – mania advinda da nossa incapacidade de aceitar a morte de pessoas que admiramos.

De qualquer forma, a proposta era escrever uma resenha sobre qualquer obra do escritor e eu não pude deixar de me arriscar nesse desafio, já que Saramago é Saramago (ou era). A minha resenha não ganhou – o que não tornou a coisa toda menos interessante, pois tive uma boa desculpa para revisitar a minha obra favorita dele, dentre as que li: o romance A Caverna. Abaixo transcrevo a minha resenha perdedora, mas com alguma dignidade, pois acredito que ela não merece ir pro vácuo.

Já a resenha vencedora, da Caroline Oliveira, encontra-se no blogue da Cia. das Letras e é sobre o romance A Jangada de Pedra.

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A Caverna é aqui

saramago

Dois anos após receber o mais cobiçado prêmio da literatura mundial, José Saramago concluiu uma sequência de obras, na qual ele teceu sua própria visão dos caminhos da Humanidade, com o romance “A Caverna”. Neste livro, o escritor traçou um paralelo entre o conhecido Mito da Caverna, de Platão, com a atual sociedade midiática e consumista.

Seguindo uma vida tranquila no subúrbio, o oleiro Cipriano Algor divide suas preocupações entre sua produção de louças e a sua recente paixão pela sua vizinha, Isaura Estudiosa. O ofício é realizado na sua própria casa e ele conta com a ajuda da sua filha, Marta, e com a companhia do seu fiel cão Achado.

Sua rotina, todavia, sofre uma reviravolta quando o seu principal cliente, o Centro, rompe relações econômicas com o oleiro sob o argumento de que as pessoas passaram a dar preferência a utensílios de plástico, pois estes seriam mais “modernos”. Aliás, “moderno” e “cômodo” são as palavras-chaves para descrever o Centro, um prédio que funciona como uma espécie de complexo residencial e comercial – a imitar os nossos condomínios e shopping centers. Lá trabalha o genro de Cipriano, Marçal Gacho, como vigilante.

Mas Saramago não trata o Centro apenas como um local físico, e sim como uma espécie de instituição ideológica que representa a sociedade contemporânea, na qual tudo é descartável e passível de substituição – assim como os objetos que saíram das mãos do oleiro.

Vendo o pai desolado pelo golpe sofrido, Marta o aconselha com novos projetos que logo se mostram infrutíferos. Ao mesmo tempo, Marçal consegue a promoção que tanto desejava e passa a ser vigilante-residente. Esta nova condição o beneficia com uma unidade residencial no Centro e então ele propõe ao sogro a ideia de todos se mudarem para lá. Apesar de contrariado, Cipriano acaba aceitando a proposta pelo simples fato de não ter escolha. A mudança lhe impõe o rompimento do seu romance com Isaura e ainda o obriga a deixar Achado, pois o Centro não permite animais. O novo sistema parece ter vencido e esse é o primeiro passo na alienação do sujeito.

Morando no Centro, Cipriano decide estudar o lugar para entender o que o torna tão atrativo. A perfeição do complexo está, na verdade, na sua artificialidade. Tudo ali é planejado de modo a agradar, entreter e, assim, inibir o questionamento. As atividades dos moradores se resumem àquele espaço, trabalha-se para que o mundo exterior não seja mais objeto de curiosidade, as janelas são hermeticamente fechadas e a vida é vigiada em nome da segurança, vive-se numa bolha.

Uma noite, Marçal é designado para cuidar de um canteiro de obras onde está sendo realizada a expansão do Centro. Cipriano fica sabendo dos rumores de que algo fora encontrado ali e resolve prestar uma visita ao genro, driblando a segurança para chegar ao seu posto. Marçal permite que o sogro entre no local e ali ele encontra os restos de seis corpos humanos, presos por ataduras a uma posição que os obriga a olhar unicamente para a parede à sua frente. A descoberta que ele faz é bastante estranha, mas é a interpretação que ele dá ao que vê que o assusta de verdade. Para ele, aquelas pessoas representam nada menos do que ele mesmo e todos que ali moram.

Cipriano é de uma geração anterior e também reticente com os rumos da vida moderna, enquanto que Marçal não apenas é um defensor do Centro por ofício, mas também por crença. Apesar desse distanciamento ideológico inicial, com a descoberta da Caverna, ambos se vêem confrontados com uma questão mais profunda que as suas diferenças. Se no Mito da Caverna de Platão foi necessário aos prisioneiros saírem dali para se dar conta da realidade da qual estavam alienados; no romance de Saramago, suas personagens precisaram adentrar a Caverna para ver naquelas figuras a si mesmos e, assim, atestar a sua condição.

Juntos e sem rumo, eles decidem abandonar o Centro e no caminho apanham Isaura e Achado. Mas não vão embora sem que antes Cipriano possa visitar o seu antigo forno para retirar dali todos os bonecos que havia abandonado. Num desejo de libertar toda a Humanidade, ele tira suas criações da escuridão e as leva para o mundo exterior. Já na estrada, eles vislumbram um último pedaço do que deixaram para trás, uma enorme placa com os seguintes dizeres: “Caverna de Platão, atração exclusiva, compre já seu bilhete”. A sociedade do espetáculo não desiste.

Com essa história, Saramago quis fazer com que percebêssemos as ataduras às quais estamos presos para que, assim como suas personagens, fôssemos capazes de nos livrarmos delas. Nenhuma coincidência com o mundo real é acidental. As novas gerações estão cada vez mais ligadas à mídia e ao consumo como modelo de vida. Olhamos para imagens fabricadas e as concebemos como realidade. Construímos sombras de nós mesmo em redes sociais, convencendo aos outros de sermos o que apresentamos. Vivemos a olhar para telas, nossas paredes, e não nos viramos. A Caverna é aqui e “essas pessoas somos nós”.

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6 comentários em “A Caverna é aqui.

  1. Muito boa sua reflexão. Conheço o mito de Platão, mas confesso que havia ficado intrigada com o desfecho da história em que todos partem sem nenhuma explicação mais concreta. A inferência “Saramago quis fazer com que percebêssemos as ataduras às quais estamos presos para que, assim como suas personagens, fôssemos capazes de nos livrarmos delas” foi bastante esclarecedora. Parabéns!

    1. Olá Patrícia! Obrigada pelo seu comentário. O final do livro é bastante marcante e realmente deixa uma impressão forte.

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