Sete segundos pra arte.

Os corredores são largos, as salas são amplas e o piso, escorregadio – feito pra evitar a pressa. Tudo é muito velho, dá pra saber; mas parece novo. Por entre cômodos gigantescos de paredes altas, as pessoas andam vagarosamente de um lado pro outro, como que para não levantar suspeitas de que estão achando tudo aquilo um saco. Detêm-se em frente a algo que as chamou atenção, observam o objeto de curiosidade enquanto sacam uma compacta, olham pros lados pra ver se algum funcionário está vigiando, clicam e seguem em frente.

Há quem diga que o tempo médio que as pessoas gastam observando uma tela é de sete segundos. As cores, as texturas, os movimentos do pincel – tudo é pobremente absorvido em sete segundos. Todos estão tentando bater o recorde de Band à Part, mas não sem antes tirar uma foto da minúscula Gioconda. Feia como um homem feio, mas envolta num mistério sem fim nem sentido que arrasta uma multidão pelos corredores do Louvre apenas para registrá-la.

Do outro lado do oceano, numa sexta-feira qualquer, uma grande e gorda fila se forma nos arredores do MoMA. É a Target Friday, um dia de visitação gratuita ao maior museu causador de perplexidade de Nova York. No hall principal, o barulho é ensurdecedor. As centenas de vozes ecoam. São muitas e muitas pessoas que, observadas do topo da escada, parecem formiguinhas cultas.

A maior aglomeração ocorre no quinto andar, em frente à Noite Estrelada, de Van Gogh. É o único quadro da sala coberto por vidro, uma proteção extra devido ao assédio sofrido. Ainda assim, driblando a multidão e o observando de lado, é possível ver pequenas montanhas de tinta formadas pela insistência do pincel. Essa textura, imperceptível em reproduções, só se pode ver assim: ao vivo. Mas os cliques continuam, insensíveis.

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3 comentários em “Sete segundos pra arte.

  1. Minha mãe é esse tipo de pessoa em museu. Vez ou outra ela gostar de contar a história de quando ela foi comigo no masp e que eu fiquei *horas* olhando cada coisa e que isso seria muito chato, pois ela queria ir logo pro shopping. Se fosse só para dar uma olhadela eu ficava em casa, ora.

  2. Nunca teria pintado um quadro se soubesse que ele seria colocado em um museu ou estudado profundamente por alguma pessoa com um diploma em um curso sem o menor sentido. Bem, não pinto quadros. Escrevo de vez em quando algo interessante. Após a criação do Museu da língua portuguesa, tenho medo de cada palavra que sai dos meus dedos. Me esforço agora para aprender mandarim e, definitivamente, continuar recluso a minha escuridão.
    Sem piedade para a arte,
    Horácio

  3. Falta ainda um tantinho de respeito quanto às artes. Mas compreendo o público que visita. Antigamente, a arte dependia apenas de visualização, de contemplação. Atualmente, no entanto, queremos participar, ser objeto e objetivo de quem cria.
    Dessa forma, até considero mais justo. Apesar da dificuldade de preservação, apresentado no caso acima.
    Abraços.

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