Vida fora do Vade Mecum.

Na faculdade, eu tinha um desses professores que só se vê em filmes americanos ou ingleses. Ele andava sempre com um livro debaixo do braço e conseguia usar paletó de tweed com cotovelos aveludados em pleno verão nordestino. Parecia uma figura saída dos corredores de Harvard, mas suado como um retirante.

Não bastasse o estilo fora do comum (ou fora de contexto), ele também tinha manias que normalmente associamos à figura de um velho de setenta anos com problemas de TOC. Em todas as provas ele usava a exata mesma fonte com o exato mesmo estilo e sempre as devolvia dobradas exatamente no meio. Quando os resultados eram satisfatórios, ele entregava as notas sem muitos comentários. Mas se não eram, bastava ele atravessar a porta da sala para percebemos que reprovações estavam por vir. Após a distribuição das notas, seguia-se uma longa aula sobre vivência. Nenhuma palavra sobre Direito Financeiro.

Fora o descompromisso dos alunos com a matéria, o que mais o indignava eram barulhinhos chatos e pessoas com seus smartphones. Na primeira categoria estavam incluídos sons de “flic flic” de canetas retráteis, folhas de caderno sendo destacadas ou amassadas e, claro, as conversas de alunos desinteressados. Ao ouvir qualquer desses sons, um botão de reset era automaticamente ativado. Tornava-se impossível continuar o assunto e ele precisava sempre recomeçar.

Uma de suas histórias envolve uma viagem solitária de 300 Km que durou quase seis horas simplesmente porque um barulhinho esquisito no carro o fez parar em plena BR, resultando numa busca incansável de duas horas nas quais ele descobriu a origem do som, o fez cessar e enfim pôde continuar seu caminho. Pessoas assim não atravessam a rua numa curva nem usam o cabelo de lado.

De todas as suas “excentricidades”, havia uma que me agradava de modo especial. E ao mesmo tempo que me agradava, era também motivo de ansiedade. No fim de todas suas provas havia uma questão bônus que, felizmente, nada tinha a ver com Direito. Era sempre a primeira coisa que eu lia e a única que eu verdadeiramente me importava em não errar.

Tratava-se de uma pergunta simples que incluía o título de uma obra literária precedida das palavras “quem escreveu”. Não raramente eu observava a dúvida nos rostos dos meus colegas, mas nunca hesitei em respondê-la. Esse teste simples e raso sobre conhecimentos literários foi durante alguns semestres o meu escape em cinco anos de uma graduação que até hoje não sei onde me levará nem por quais razões escolhi. Era confortante saber que em meio a tanta burocracia alguém ainda se importava com a poesia que existe longe da letra fria da lei – ainda que esse alguém se comportasse como um idoso professor inglês que sofre de TOC.

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2 comentários em “Vida fora do Vade Mecum.

  1. Sabe, sou totalmente a favor da preservação do sonho, que frequentemente é uma questão de procurar saber menos, usar um pouco de photoshop, e manter as celebridades, ali, bem distantes. (Mas é bom ver a Clarice toda mainstream fazendo carão de toguinha.)

  2. Essa também foi uma das minhas coisas favoritas na FDA, que, já estamos cansadas de saber, não nos ofereceu quase nenhuma.

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