Atenção: este não é Euro Trip II.

Num domingo de chuva, quatro amigos resolvem ir ao cinema do shopping mais próximo. Em seguida, vão em segurança jantar num restaurante de comida japonesa – um ambiente fechado com ar-condicionado.

Essa foi a trama do meu domingo. Não daria um bom filme nem tampouco um bom livro.

Já na tela, a vida corria desvairada. Não era Dean Moriarty e muito menos Sal Paradise os protagonistas, mas sim a própria vida se mostrando na sua forma mais irrepreensível. Todas as cenas lembravam mais ou menos as imagens que se formaram na minha cabeça quando, há dois anos atrás, eu lia as palavras de Jack Kerouac. Inegável a fidelidade com que Walter Salles tratou o livro, não se arriscando numa história que por si só já é tão arriscada.

A narração de Sal devotada à figura de Dean provava a cada segundo que aquele filme fora concebido para ser uma mera extensão da obra que o originou. Como no livro, tudo acontecia muito rápido e todos os olhos se voltavam para saber o que Moriarty faria a seguir. A liberdade que eles tinham parecia maravilhosa, completamente invejável. Mas as diferenças entre como Sal e Dean concebiam o “uso” dessa liberdade vai se tornando mais e mais palpável à medida que o filme se aproxima do fim.

Ambos tinham um desejo louco por ela, mas enquanto que Dean precisava dela, Sal a experimentava através dos atos do amigo e lidava com seus próprios limites. Tais limites não existiam para Dean e em um certo ponto é possível ver todo aquele sonho se desfazendo, expondo o verdadeiro sentimento da inquietude. Enquanto que Sal soube apreciar a liberdade que lhe fora dada de forma a utilizá-la em seu favor, Dean se deixou viciar. Numa contradição perturbadora, Moriarty virou prisioneiro da sua própria liberdade. Nas últimas cenas, o seu rosto magro cansado contraposto ao perfeito penteado de Sal dá o contorno final à dualidade existente entre os dois.

Assim que as luzes do cinema iam reacendendo, deixando pra trás o nome “Moriarty”, retornava a mim a sensação que tive quando fechei o livro em sua última página. Acabar o filme com exatamente as mesmas palavras que Kerouac acaba o livro foi provavelmente o maior acerto de toda a adaptação, pois teve o poder de impactar e surpreender o leitor fiel que com muita desconfiança se sentou na cadeira da sala de projeção. Essa estratégia acabou por deixar a sensação de que aquele era sim o livro, ainda que em uma versão resumida acompanhada de sons e imagens.

Quando enfim o filme acabou e uma música discreta começou a tocar, o silêncio parecia ter dominado a plateia. Seria bom se tivesse continuado assim, mas ao invés disso um garoto fez questão de deixar bem clara a sua opinião sobre o que acabara de ver para todos que lá estavam. Falou num tom de voz particularmente alto: “Que filme bosta! Muito ruim!”. Essa reação especialmente exagerada quase destruiu meu sentimento de gratidão por não terem estragado um livro de que tanto gosto e me fez pensar que não importa o quão todos os envolvidos no filme tenham se esforçado para torná-lo algo mais puro e próximo do livro, Kerouac não teria ficado satisfeito.

Depois da publicação de On the Road e do sucesso inesperado que ele alcançou, o autor se viu intimidado pelos títulos que lhe foram atribuídos. Aquele não era o homem que desejava ser a voz de geração alguma, não queria ele representar qualquer coisa. O peso da opinião alheia lhe perseguiu por toda a vida e agora, levar a sua criação ao alcance de pessoas que não conhecem e pouco se importam com o sentimento confuso que ele tentou passar me parece muito arriscado (mesmo quando Walter Salles em nada se arriscou na sua adaptação). Dá medo pensar que muitos lerão a sinopse e irão ao cinema acreditando que aquele será mais um Euro Trip da vida. Esses com certeza sairão desapontados, julgando com base em duas horas um sentimento tão humano que provavelmente existe neles mesmos, mas que ignoram. Talvez algo que um pequeno aviso escrito “Atenção: este não é Euro Trip II” resolvesse – ou não.

A esses eu aconselho que, antes de sair por aí julgando e atribuindo a Kerouac a alcunha de pregador do uso de drogas ou ainda de voz de uma geração, alguns instantes se fazem necessários para que se possa mergulhar em si mesmo, sem muitas palavras ou racionalidade. De nada vale sair por aí tentando explicar o que se viu, pois o absurdo não tem explicação e aquele é o absurdo da vida.

“Amarguras, recriminações, conselhos, moralidade, tristeza – tudo lhe pesava nas costas enquanto à sua frente descortinava-se a alegria esfarrapada e extasiante de simplesmente ser.” – On the Road, Jack Kerouac

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4 comentários em “Atenção: este não é Euro Trip II.

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