Kafka não te considera.

Saber quando abandonar um livro é uma questão de experiência. Já fazê-lo demanda ainda um pouco de coragem, é preciso praticar o desapego literário. Para mim, uma problemática certa. Sinto-me como um soldado que considera a possibilidade de abandonar uma guerra. Pesam sobre a minha decisão elementos como a vergonha, o escárnio social e a evidente covardia. Com exceção de que nada disso acontecerá – porque afinal, quem se importa?

Alguns livros dos quais desisti ainda permanecem na minha estante – meio que me olhando de cima pra baixo – e eu não tenho uma resposta satisfatória para eles. Como num caso romântico que não deu certo você abana as mãos e tenta explicar o que aconteceu, mas enfim sabe apenas que “não dá mais”. A diferença é que se você pode se livrar da convivência daquelas pessoas, não é possível fazer o mesmo com seus livros (a não ser que você seja bom também no desapego físico, outra categoria sobre a qual prefiro nem tratar). E lá eles permanecem, te cobrando atenção.

No meio desse caminho foi que eu encontrei Kafka e a sua maneira desleixada de tratar o leitor. Sua narração é envolvente, seus personagens são marcantes e suas reflexões são intrincadas. Com o seu estilo ele cria em quem lê uma expectativa, uma falsa impressão de segurança pra vida. Mas aí, no meio de uma página qualquer, ele te abandona sem maiores explicações. Você vira o livro pra cá e pra lá na esperança de mais um pouco daquilo tudo, corre o chão do quarto atrás de uma página solta e, ao se dar conta do que ele fez, sente-se ofendido e até um pouco magoado. Amanheceu e não tem mais ninguém ao seu lado na cama.

Kafka termina seus livros do mesmo jeito que a vida termina ela mesma: de forma abrupta e sem sentido. Ele se vinga em nome de todos os títulos que foram devolvidos à sua estante sem serem finalizados.

Por sorte, “A Metamorfose” é tão curto quanto a sua consideração e a vingança não surtiu efeito dessa vez.

Já não posso dizer o mesmo das outras…

 

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2 comentários em “Kafka não te considera.

  1. Eu sofro do distúrbio contrário (e ainda mais estranho): não quero terminar livros. Já procurei explicações na preguiça, no fato de livro não ser muito bom, mas deve ser algo como “síndrome do interminado”. Talvez eu deva procurar um psicólogo. Btw, meu “o processo” nunca foi terminado, está com meu lindo marcador de páginas muito bem guardado dentro dele.

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